Patronos
António Vitorino
António Gomes Vitorino nasceu em 26 de Março de 1886, em Vieira de Leiria. Foram seus pais Clara Filipe e Manuel Gomes Henriques. O pai de António Vitorino foi serrador e - quando já incapaz de suportar a dureza daquele oficio - almocreve. A mãe, filha também de serrador, trabalhou na agricultura e no comércio de pescado. A família do pai de Vitorino era conhecida por "os Canastreiros", pois tinha sido essa a profissão do seu avô paterno.
António Vitorino frequentou a instrução primária na Vieira, onde também trabalhou desde muito novo: foi pastor, pescador, almocreve, marçano. Fixou-se mais tarde na profissão de serrador, exercida em grande parte nas próprias florestas a desbastar - que o levou por todo o país e até à Galiza. É este também o oficio que - agora em serrações fixas - primeiro exerce em Lisboa, onde residia já uma sua irmã e para onde vem pelos 18 anos. Mais tarde, ainda na estância de madeiras, passa a encarregado e depois a empregado administrativo. Por essa altura é também revisor de provas na imprensa. Finalmente, dedica-se ao comércio, como representante de firmas estrangeiras.
Entretanto (e para tanto) estudou à noite: no curso nocturno de Teatro dirigido pelo actor e encenador Manuel Joaquim de Araújo Pereira, no Conservatório ("arte de dizer e arte de representar", conforme se lê no seu cartão de aluno, datado de 1929), no Instituto Francês, onde obtém um diploma em 1945; e, por indicação de Araújo Pereira, na Universidade Livre.
Desde que, aos 18 anos, recém-chegado a Lisboa (cerca de 1916) assiste à representação de uma revista, o teatro volveu-se num dos seus mais fortes interesses: "actor" é mesmo a profissão anotada no seu Bilhete de Identidade, emitido em 1938. Pertenceu primeiro ao Grupo Dramático Construção Civil, depois chamado Grupo Dramático Solidariedade Operária, e mais tarde, à companhia de Araújo Pereira. Fez também teatro radiofónico, na Rádio Peninsular. Dentre os autores que representou (ou pelo menos preparou, encontrando-se entre os seus papéis cópias anotadas das peças, com indicação do personagem a seu cargo) contam-se Pirandello, Ibsen, Tolstoi, Raul Brandão, Gil Vicente. Cerca de 1950, dirige o Novo Grupo de Amadores de Teatro, encontrando-se entre os seus papéis notas sobre adereços e marcações de peças teatrais.
Através do teatro e de Araújo Pereira, António Vitorino liga-se aos meios culturais oposicionistas, tornando-se ele próprio antifascista e democrata. Aliás, já nos seus tempos do Grupo Dramático de Solidariedade Operária representara em récitas "pró-presos por questões sociais", conforme escreve. Conviveu com Mário Dionísio, Alves Redol, Manuel da Fonseca. Foi sócio d'A Voz do Operário, instituição que o homenageou em Março de 1947. Pertenceu ao respectivo Núcleo Orfeónico, dirigido por Francine Benoit. Em 1945 é co-fundador, com Alves Redol e Luís Francisco Rebelo - entre outros - do Círculo de Cultura Teatral - cujas actividades são divulgadas pela revista Vida Mundial Ilustrada.
A sua ligação ao teatro leva Vitorino a escrever textos para cena: "O desertor" (representada pelo Grupo Dramático referido, ainda antes dos seus estudos dramáticos, numa época em que era serrador no Seixal) "Ascensão", "Juízo Final" e "A paixão do Nazário", peça premiada com o segundo lugar num concurso literário d' A República.
O seu primeiro livro, Chuva de Maio (versos), sai em 1930, com o apoio de Araújo Pereira. 1938 é a vez de Gente da Vieira (onde se inclui o conto "Maria do Rosário", que ganhou em 1938 o prémio da revista Pensamento), publicando-se seis anos depois A vida começou assim. O último volume a ser dado à estampa, em 1950, é Praia da Vieira. Sua pena e sua glória, ensaio e narrativas sobre o passado e o presente da localidade. A temática destas obras - o difícil quotidiano dos trabalhadores manuais vieirenses - mostra a ligação que o autor manteve à terra de origem, onde voltava e permanecia sempre que lhe era possível.
Vitorino utiliza os conhecimentos e competências que a sua permanência em Lisboa e o seu esforço intelectual lhe vão permitindo adquirir não somente para analisar e reinterpretar as realidades locais que tão directamente conhecera e tanto o haviam marcado, como também para ajudar os que nelas permanecem imersos a modificá-las em seu próprio benefício. Assim, em 1949, altura em que se discute a urbanização da Praia da Vieira, fazendo-se porta-voz dos anseios dos moradores - mormente os pescadores - escreve ao Ministro do Interior e dirige ao Director-Geral da Fazenda Pública uma longa exposição pormenorizando a perspectiva local sobre o assunto. Já antes, em 1947, escrevera também os versos de urna "Marcha da Praia da Vieira" aludindo ao mesmo problema e destinada, tanto quanto se infere do respectivo texto, a ser apresentada em Lisboa, aquando dos Santos Populares, por um grupo de habitantes da Praia. Aliás, o livro Praia da Vieira. Sua pena e sua glória - aquele onde se encontram trechos mais explicitamente relativos ao passado local - é todo ele construído em torno do problema da urbanização da Praia, verificando-se ser em parte devido a ele que Vitorino se debruça sobre a história da povoação. Assim, nas três sucessivas partes deste livro, o autor apresenta "A Gente'. Contando a vida de quatro praianos representativos de outros tantos grupos sociais locais (arrais, senhorio, almocreve e sardinheira) - descreve "O Esforço" - narrando o processo de povoamento da zona e respectivas dificuldades - e sublinha "A Dívida" - isto é, expõe argumentos diversos, decorrentes das secções anteriores, a favor de uma urbanização da Praia que tenha em conta os interesses dos pescadores e dos outros habitantes ligados ao mar.
Além dos volumes referidos, António Vitorino publicou ainda a novela "Há um homem enforcado", na colectânea Contos e novelas - prosadores portugueses contemporâneos, que saiu em 1946. Encontra-se também antologiado no volume 0s melhores contos portugueses, com selecção de João Pedro Andrade, editado em 1959 pela Portugália. Produziu ainda, finalmente, contos e poesia dispersos em revistas e jornais, assim como várias conferências. Uma delas, sobre o pinheiro e o trabalho dos serradores, publicada na Indústria Portuguesa, originou troca de correspondência entre Vitorino e Arala Pinto.
Pelos anos 1950, verificaram-se na Biblioteca de Instrução e Recreio, na Praia, algumas sessões, nocturnas de leitura dos seus livros, por iniciativa do cabo-de-mar da época, António Silva.
António Vitorino casou em 1938 com Gabriela Clara Reis de Oliveira. Tiveram duas filhas: Clara Joana e Maria Gabriela de Oliveira Vitorino. Faleceu em Lisboa, em 27 de Abril de 1962.
Em 1977, a Assembleia de Freguesia da Vieira de Leiria deliberou atribuir o seu nome a uma das ruas da localidade.
Bibliografia do Autor:
1930, Chuva de Maio, s. 1. [Lisboa], ed. autor.
1938, Gente da Vieira
1940, A paixão do Nazário (teatro), manuscrito
1943, “Uma riqueza de Leiria - o pinheiro” (conferência proferida em 26.05.1943 na Casa do Distrito de Voz da Marinha Grande (sob o título "O que o pinheiro dá ao homem e o que o homem dá ao pinheiro"), 07, 14.10.1943, 21.10.1943, 28,10.194.3, 04.11,1943, 11.11.1943, 18.11.1943.T, também publicado, com o mesmo título em Indústria Portuguesa, ano 16, n." 184, Junho 1943. Também proferida no Clube de Campismo de Lisboa, em 11.05.1950.
1943, Vai cantar (monólogo), manuscrito.
1944, 'Chico Zufrino & Cª'(conferência), manuscrito.
1945, 'A propósito de Message personnel' (crónica sobre o livro do mesmo autor), radiofundida pelo Clube Radiofónico Português, 22.03.1945.
1945, 'Matéria Social' (conferência proferida na Biblioteca de Instrução Popular, Vieira de Leiria), manuscrito.
1946, 'Teatro e Escola' (conferência proferida, a convite d'A Voz do Operário, Tuna Reacreativa da Juventude Chalense), manuscrito.
1947, 'Marcha dos Pescadores da Praia da Vieira' (versos), manuscrito.
1948, “Sem título” (apontamento autobiográfico), inédito.
1950, “No XVIII aniversário da Biblioteca de Instrução Popular”, manuscrito.
1950, Praia da Vieira - sua pena e sua glória, Lisboa, ed. autor.
in: VIDAS PASSADAS OBRAS PRESENTES
(pinhal do rei - documentos concelhios)
Exposição Documental e Bibliográfica
Câmara Municipal da Marinha Grande
(projecto Núcleo de Arquivo e Documentação)
Transcrito do site: http://www.mgrande.net/marinhagrande
José Loureiro Botas
José Loureiro Botas nasceu em 6 de Julho de 1902, na Praia da Vieira, Vieira de Leiria.
Foram seus pais Maria Malaquias Botas e Joaquim Loureiro Botas. O pai de José Loureiro Botas, dono de uma companhia de pesca, exercia também funções de banheiro salva-vidas, tendo sido condecorado pela Rainha, em 1892, pelo seu mérito nessa tarefa. Quanto à mãe, ocupava-se no comércio de pescado.
Frequentou na Vieira a instrução primária, que concluiu aos nove anos, com distinção. Nessa altura, O Século noticia o facto, advogando um apoio governamental que lhe permitisse prosseguir os estudos. Mas o apoio pedido não surge. Chegando a matricular-se no liceu de Leiria, Botas não pode contudo, por falta de recursos, frequentar as aulas. Uma possibilidade de ajuda nesse sentido por parte do padrinho rapidamente desaparece também, devido à súbita morte deste.
José Loureiro Botas começa então a trabalhar, no comércio, primeiro na Marinha Grande, depois, a partir dos 18 anos, em Lisboa. Aí trabalhou numa retrosaria e numa loja de roupas do Chiado. Mais tarde tornou-se proprietário comercial, primeiro de uma retrosaria e depois, com outros sócios, da "Pastelaria Irlandesa", na Rua Alexandre Herculano, a partir de 1938.
No princípio dos anos 20 frequentou, tendo sido aprovado com elevada classificação, o curso nocturno do Ateneu Comercial de Lisboa, instituição de que era sócio desde 1921. Pertenceu aos Corpos Sociais do Ateneu durante mais de 30 anos, desde 1930 até falecer. Dedicou a esta associação o seu primeiro livro, Litoral a Oeste.
Loureiro Botas relaciona-se com alguns círculos da intelectualidade da época, entre escritores, jornalistas e artistas plásticos. Todos os verões regressa à Praia da Vieira, onde mantém igualmente uma extensa rede de contactos.
Foi no Boletim e noutras folhas do Ateneu que publicou os primeiros textos, tendo sido também premiado nos jogos Florais daquela associação, em 1938 e 1939. Ganhou ainda, com a novela Medalha de Oiro, um prémio literário associado aos Jogos Desportivos Nacionais de 1937.
Colaborou em diversos jornais e revistas, sobretudo n' O Século. Também o Boletim do Ateneu continua a publicar contos seus, o mesmo fazendo em 1979, já depois da sua morte, o Jornal da Marinha Grande.
Em 1940 inicia a publicação em livro dos seus trabalhos, com Litoral a Oeste, que ganhou o prémio “Fialho de Almeida", do S. N. 1. e que foi duas vezes reeditado. Em 1944 sai Frente ao mar, que teve segunda edição. O terceiro livro, Maré Alta, é de 1952. Sete anos depois vem a lume Nasci à beira do mar (versos) e em 1963 publica-se Barco sem âncora. Como é sabido, os contos e novelas de Loureiro Botas têm por tema principal a vida da população pobre da Praia da Vieira, sobretudo dos pescadores e ocupações adjacentes. Muitas vezes pintou nos seus escritos personagens e acontecimentos verídicos.
José Loureiro Botas faleceu em Lisboa, em 18 de Junho de 1963. O funeral realizou-se no cemitério de Vieira de Leiria.
Em 1959 fora já homenageado em sessão solene no Ateneu. Após a sua morte, esta associação inicia uma subscrição para colocar no túmulo de Loureiro Botas uma lápide evocativa, que será colocada anos mais tarde. Ainda antes disso, em 1965, a Biblioteca de Instrução Popular dedicou ao autor a sua sessão solene de aniversário, à qual se deslocam representantes do Ateneu Comercial. No ano seguinte, a escola desta última associação prestou também homenagem ao escritor, atribuindo o seu nome, em sessão solene, a uma sala de Biblioteca e convívio. Em 1971, o dinamizador da recém-iniciada actividade cultural no Ateneu coloca essa nova linha de acção associativa sob a evocação de Loureiro Botas. Em 1977, é dado o seu nome a uma rua da Praia da Vieira.
A sua obra foi objecto de análise pela jornalista Leonor Bandarra, em sucessivos números do Correio do Minho, tendo o conjunto dessa análise sido publicado em opúsculo em 1974.
Entre 25 de Maio de 1978 e 26 de Julho de 1979 Barco sem Âncora é publicado no Jornal da Marinha Grande.
José Loureiro Botas encontra-se antologiado na Bulgária, numa colectânea de autores portugueses editada naquele país em 1979.
Bibliografia do Autor:
1934, Um casamento no Ateneu, O Gargalhadas (folha do Ateneu Comercial de Lisboa) Carnaval de 1934.
1938, Como eu vi a ilha da Madeira, O Ateneu. Boletim do Ateneu Comercial de Lisboa, Março a Agosto de 1938.
1940, Litoral a Oeste, Lisboa, Portugália. (2ª ed.: 1944)
1944, Sem título (entrevista ao "Documentário do Ar Portugal- Brasil"), A Voz da Marinha Grande, 24.02.1944.
1944, Frente ao mar, Lisboa, Portugália.
1950, A Praia da Vieira continua às escuras, A Voz da Marinha Grande, 02.11.1950.
1952, Maré Alta, Lisboa, ed. autor. 1959, Nasci à beira do mar Versos, Lisboa, Portugália.
1960, Oito décadas, O Ateneu. Boletim do Ateneu Comercial de Lisboa, 11 série, n.º 4, Junho 1960.
1961, Hino ao Ateneu (versos), O Ateneu, Boletim do Ateneu Comercial de Lisboa, 11 série, n.º 12, Fevereiro 1961.
1963, Barco sem âncora, Lisboa, Portugália
in: VIDAS PASSADAS OBRAS PRESENTES
(pinhal do rei - documentos concelhios)
Exposição Documental e Bibliográfica
Câmara Municipal da Marinha Grande
(projecto Núcleo de Arquivo e Documentação)
Transcrito do site: http://www.mgrande.net/marinhagrande
Padre Franklin
De seu nome Franklin Henriques da Cunha, nasceu a 13 de Março de 1922, no lugar de Sobral, freguesia da Barreira (Leiria). Morreu, vítima de cancro, no dia 20 de Agosto de 1974, em Vieira de Leiria e está sepultado no cemitério desta vila. Era filho de Acácio da Cunha e de Maria da Purificação Henriques.
Entrou para o Seminário Diocesano de Leiria no ano de 1933 e foi ordenado padre em 1944. Começou na sua terra natal e depois foi pároco na paróquia de Pataias para onde foi no dia 19 de Janeiro de 1945 e onde se manteve durante dezoito anos até ao ano de 1963. Antes de vir para a Vieira de Leiria, foi nomeado capelão das Forças Armadas em África.
Por todos os lugares por onde passou deixou obra feita. A comprová-lo estão as homenagens que os paroquianos lhe foram prestando, como aconteceu na freguesia de Pataias, onde lhe fizeram uma estátua de corpo inteiro e em Vieira de Leiria, onde deram o seu nome à Escola Preparatória e lhe ergueram um busto que está no adro da igreja.
O Padre Franklin foi o grande responsável pela criação das boas condições para os vários níveis de ensino na Vieira de Leiria. A ele se deve a origem do primeiro Jardim de Infância, em 1968, assim como a criação do ensino Preparatório e Secundário.
Também foi o responsável pela construção da capela da Praia da Vieira que tem a particularidade de ser toda construída com madeiras do Pinhal de Leiria.
Foi uma pessoa que, pelo seu trabalho e sacrifício em favor da Vieira, mereceu das pessoas o maior respeito e admiração.
Excerto de Biografia de Padre Franklin - Clube do Património 2004/2005

















